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Dias de Ativismo: heteronormatividade perpetua violência contra mulheres lésbicas e trans

  A reportagem a seguir faz parte da campanha “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres”, mobilização global concebida pela ONU Mulheres, a qual a CAASP adere com o fim de trazer novos olhares sobre a violência contra as mulheres e reflexão para a busca de soluções. Confira outros materiais da campanha em nossas redes sociais.  “A priori, ser LGBTQIA+ deveria ser libertário, mas não necessariamente é. A gente cai na heteronormatividade”. A constatação é da historiadora e vice-presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Travestis (ABGLT), Heliana Hemetério. Aos 70 anos, negra, lésbica, mãe e avó, ela explicou à reportagem da CAASP como muitas vezes pessoas LGBTQIA+, em especial as mulheres lésbicas e trans, precisam mascarar sua personalidade natural para se adequar às pressões sociais, sob risco de serem discriminadas e até mortas se não o fizerem.  Heteronormatividade é um termo usado para descrever situações de organização e performance da vida conforme o modelo cis-heteronormativo, ainda que seus praticantes não sejam heterossexuais. Na vida prática, o conceito está presente em frases como “tudo bem ser lésbica, mas não precisa se vestir como homem ou em questionamentos a casais homoafetivos do tipo “quem é o homem da relação?”, como se uma relação homossexual necessitasse reproduzir a ideia de feminino e masculino, homem e mulher.  Quem consegue não emular os signos estéticos, corporais e comportamentais que remetam a estereótipos LGBTQIA+, como a “lésbica caminhoneira” de estilo masculinizado ou o “gay afeminado” de comportamentos ditos femininos, alcança a chamada passabilidade, isto é, a capacidade de ser lido pela sociedade como alguém cisgênero e heterossexual.  Expoente do movimento de mulheres lésbicas no Brasil, Heliana Hemetério esteve presente em no 1º Seminário Nacional de Lésbicas, no Rio, em 29 de agosto de 1996, quando foi criado o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica no país. Ela ajudou a formular a política de saúde da população LGBTQIA+ -, e afirma que seu maior fantasma na sociedade brasileira nunca foi ser homossexual, mas negra: “Sou uma lésbica de total passabilidade. Por isso, quando as pessoas perguntam para mim se foi difícil ser lésbica, eu respondo que não. Na verdade, ser lésbica para mim foi muito fácil, difícil foi me tornar uma mulher negra”.       “A lésbica, principalmente a de estereótipo masculino, e a mulher trans pouco feminizada, têm vivências de total violência na nossa sociedade”, afirma a ativista ao rememorar os casos de Luana Barbosa e de Alana Azevedo como amostras emblemáticas da prevalência e a gravidade da violência racista, de gênero e LGBT-fóbica no Brasil, resultantes do pensamento heteronormativo.  Negra, lésbica, mãe e periférica, Luana Barbosa faleceu em 2016, em Ribeirão Preto (SP), por lesões cerebrais supostamente provocadas por três policiais militares que a teriam espancado durante uma abordagem, após ela se recusar ser revistada pelos agentes do sexo masculino. Segundo testemunhas, Luana teria inclusive levantado a blusa para provar que era mulher. No julgamento ocorrido em agosto último, segundo cobertura da Ponte Jornalismo, portal especializado em reportagens de segurança pública, justiça e direitos humanos, um ponto em comum entre os réus foi à justificativa de que teriam abordado Luana por que ela “se veste e se porta como um homem”.  Já Alana Azevedo, mulher trans, moradora de Aracaju (SE), teve sua identidade de gênero desrespeitada ao ser enterrada pela família em outubro último como homem, vestida com terno, gravata e até cavanhaque. Alana tinha HIV e, segundo relatos, sofria também de depressão.  Segundo Hemetério, a correlação entre sexo e gênero faz-se presente o tempo todo. No cotidiano das trabalhadoras lésbicas e trans, os atos performativos ditos “femininos” tornam-se necessários no momento da contratação e durante a permanência na empresa. “As políticas de contratação de pessoal LGBTQIA+ são válidas, mas precisam ser ampliadas, pois é difícil as empresas contratarem lésbicas masculinizadas, gays afeminados e travestis que não tenham total passabilidade”, salienta. E, na velhice, ela completa, os LGBTQIA+ são empurrados de volta para o armário, pela falsa constatação de que idosos são assexuados.  Como se livrar das amarras heteronormativas? Nascida no seio de uma família de professores, Heliana Hemetério vê na educação a peça-chave para reivindicar o direito e a importância de celebrar as existências, relações pessoais e políticas e os afetos como eles são. “Foi na escola que eu comecei a perceber a diferença do tratamento de gênero e do tratamento racial, justamente no espaço propício para o debate da construção de gênero, da construção racial, da questão da violência”.  Ela lamenta que discussões relativas à violência de gênero, à sexualidade e ao racismo ainda sejam consideradas essencialmente tabus. “Só melhoraremos quando enxergarmos que ainda hoje existem dois tipos de pessoas no mundo: as nascidas para viver e as nascidas para morrer. E, quando falamos das nascidas para morrer , estamos falando das mulheres, dos negros e da população LGBTQIA+”, ressalta Hemetério.
06/12/2021 (00:00)
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